Escrito por Marie Marchetti | Especialista em nutrição funcional aplicada à saúde intestinal, autoimunidade e redução de inflamação
O ambiente de trabalho sempre concentrou as discussões sobre produtividade em fatores externos, como gestão, organização, metas, estímulos e clima. Porém, existe uma camada silenciosa que influencia tudo isso de dentro para fora e que raramente é considerada nas decisões corporativas. Essa camada começa no intestino e se estende até o cérebro por vias que unem microbiota, sistema imunológico e sistema nervoso. A ciência descreve esse conjunto de interações como eixo intestino cérebro e mostra que ele participa da forma como sentimos, reagimos, lidamos com estresse e organizamos nossos pensamentos ao longo do dia.
O que os estudos revelam é que o intestino não funciona apenas como órgão digestivo, ele é um centro biológico que envia sinais ao cérebro e modula humor, percepção de cansaço, motivação e clareza mental. Quando a alimentação é pobre em fibra, pouco variada ou repetidamente baseada em alimentos ultraprocessados, a diversidade microbiana diminui e o intestino perde parte de sua capacidade de regular essa comunicação. A consequência não é imediata, mas aparece com o tempo na forma de irritabilidade, oscilação emocional, dificuldade de concentração e queda na sensação de bem-estar.
O cérebro depende daquilo que o intestino produz. Essa não é uma metáfora, é um processo fisiológico descrito em revisões científicas que analisam como os metabólitos gerados pela microbiota influenciam neurotransmissores, inflamação e resposta ao estresse. O eixo funciona como uma via contínua de mão dupla, e quando uma das pontas perde equilíbrio, a outra responde. É nesse ponto que começamos a entender por que alimentação e saúde intestinal têm impacto tão profundo no indivíduo, mesmo quando ele não percebe. O corpo está constantemente se ajustando ao que recebe, ao que falta e ao que é exigido.
Quando transportamos esse conhecimento para o ambiente corporativo, não podemos afirmar que exista comprovação direta de que microbiota desequilibrada reduza produtividade ou aumente afastamentos, porque essa ligação ainda não foi estudada em populações específicas de trabalhadores. O que podemos afirmar, com base sólida, é que humor, motivação, foco e capacidade de lidar com estresse são modulados biologicamente por processos que começam no intestino. Isso significa que a saúde intestinal influencia a forma como alguém vive a rotina e interpreta desafios, o que inevitavelmente repercute em seu comportamento no trabalho, mesmo que não tenhamos estudos formais medindo essa relação.
A alimentação oferecida pela empresa, o tempo concedido para comer, a qualidade dos alimentos e o ambiente emocional das pausas moldam parte dessa fisiologia. Não é apenas o que está no prato, é o contexto em que essa refeição acontece. Um colaborador que come com pressa, com opções limitadas ou sem variedade recebe menos suporte biológico para sustentar demandas cognitivas e emocionais ao longo do dia. Mesmo sem evidência direta ligando esse fenômeno à produtividade, existe plausibilidade clara de que o bem-estar alimentar influencia o bem-estar mental.
Quando a empresa reconhece isso, ela amplia sua visão sobre cuidado. Ela entende que oferecer boa alimentação, promover pausas reais, facilitar escolhas nutritivas e reduzir fatores de estresse é uma forma de fortalecer mecanismos internos que sustentam o colaborador. Não se trata apenas de reduzir custos ou aumentar eficiência, trata-se de compreender que o ser humano produz melhor quando está biologicamente estável, emocionalmente regulado e fisiologicamente nutrido.
O eixo intestino cérebro ainda não entrou por completo no vocabulário corporativo, mas já deveria estar presente nas decisões sobre saúde ocupacional. Ele explica parte do que sentimos e parte do que entregamos. Ele traduz experiências internas em comportamento externo. Ele lembra que produtividade não nasce apenas do esforço, nasce da biologia que sustenta esse esforço. E quando uma empresa cuida dessa biologia, ela cuida, ao mesmo tempo, da pessoa e do resultado.
Perguntas e respostas sobre intestino, cérebro e desempenho no trabalho
O que é o eixo intestino cérebro?
É o sistema de comunicação entre intestino, sistema nervoso e sistema imunológico, responsável por influenciar emoções, resposta ao estresse, foco e organização mental.
Por que o intestino influencia o bem-estar emocional?
Porque a microbiota intestinal participa da produção de metabólitos que modulam neurotransmissores, inflamação e resposta ao estresse.
Existe comprovação direta de impacto na produtividade?
Ainda não há estudos específicos com populações de trabalhadores, mas há evidência sólida de que humor, foco e capacidade de lidar com estresse são biologicamente modulados pelo intestino.
A alimentação no trabalho pode influenciar o desempenho?
Sim. Qualidade, variedade, tempo e contexto das refeições influenciam o suporte biológico necessário para sustentar demandas cognitivas e emocionais.
Por que empresas deveriam considerar esse tema?
Porque cuidar da saúde intestinal é fortalecer a base biológica que sustenta o comportamento, o engajamento e o bem-estar dos colaboradores.
Referência científica
Cryan JF, O’Riordan KJ, Cowan CSM et al. The Microbiota Gut Brain Axis. Physiol Rev. 2019.
doi: 10.1152/physrev.00018.2018
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31460832
Quem é a palestrante
Marie Marchetti é nutricionista clínica, administradora de empresas e palestrante. Atua com nutrição funcional aplicada à saúde intestinal, autoimunidade e redução de inflamação, ajudando empresas a fortalecer energia, clareza mental, bem-estar e sustentabilidade humana por meio de estratégias nutricionais práticas.
Escrito por Marie Marchetti
https://gestaodepalestrantes.com.br/marie-marchetti/
